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Administrando expectativas

Saiba o que fazer para não se frustrar no fim do programa de trainee, quando você ocupava posição de destaque na empresa.

Um belo dia, o programa de trainee acaba. E, com ele, terminam o contato constante com altos executivos e toda a paparicação e a atenção dispensada pela área de recursos humanos. De uma posição de destaque com perspectiva global da empresa e do negócio, o jovem funcionário mergulha no cotidiano mais restrito de determinada área. De promessa para o futuro, passa a ser cobrado por resultados. E, se achar que vai ser promovido no ano seguinte, tem enorme possibilidade de se frustrar. “É mais ou menos como o nascimento de um irmão mais novo”, comenta, em tom de brincadeira , a psicóloga Elvira do Amaral Lena Berni, diretora da People On Time Consultoria, sobre o day after dos programas de trainee. “Ele deixa de ser o centro das atenções”, resume.

Para não chegar no fim do programa achando que nada valeu a pena, é bom controlar a expectativa e ser realista. Diferentemente de alguns anos atrás, constatam consultores de recursos humanos, a ascensão de ex-trainees a altos cargos está mais lenta do que no passado e é feita de acordo com a maturidade e a vivência do profissional. O primeiro passo é investigar, antes mesmo de se inscrever ou iniciar o programa, o que a empresa oferece exatamente e se as perspectivas e/ou os valores da organização têm mesmo a ver com você. Em geral, as informações podem ser encontradas no próprio site da companhia ou por meio de um contato com a empresa de RH que organiza o treinamento. Se, por exemplo, o programa de trainee menciona posições no interior do país, é bom ir arrumando as malas, preparar-se para morar longe das capitais e encarar algumas diferenças impostas pela mudança.

“Há ex-trainees que chegam com notebook wireless a lugares em que não pega nem celular”, comenta Elvira, que tem entre seus clientes a Esso Brasileira de Petróleo, a Ceras Johnson e a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD). “A primeira coisa que perguntam é: ‘Onde posso conectar meu notebook?’”, diz a psicóloga., salientando que um recém-formado que aprecia a urbanidade, por exemplo, deve buscar algo que combine com seu perfil. O importante, ressalta, é não pressupor que sua “genialidade” será descoberta em meses, que passará a trabalhar perto do presidente em pouco tempo. Às vezes, a temporada em cidades mais afastadas das grandes metrópoles pode durar dez ou 12 anos, até que surja um posto mais próximo à administração central.

HUMILDADE E NETWORK

A fim de se munir para a luta cotidiana no meio corporativo, a network – rede de contatos – formada durante a época do treinamento faz grande diferença. E ter humildade, durante e após o programa de trainee, também é fundamental. “A mudança é até meio chocante”, conta a analista financeira Camila Pereira Boscov, de 23 anos, que, em 2006, entrou para a área de análises regulatórias, dentro da vice-presidência de finanças do ABN Amro Real, após passar 2005 no programa de treinamento do banco. “A gente sai de um mundo de muitos contatos, com presidente, vice-presidente e tutores, e cai em um mundinho mais restrito; deixa de ser considerado um futuro líder para se tornar um funcionário normal”. Apesar da diferença, Camila garante que está satisfeita, pois trabalha justamente na área que escolheu e já pensa em concentrar mais ainda o foco com uma pós-graduação. O importante, afirma ela, é “dar sempre o melhor de si, continuar as parcerias com os outros trainees e ir atrás para manter o acesso às informações”.

Nem todo mundo, entretanto, sente a mudança com tanta intensidade. O engenheiro mecânico José Augusto Puliti, de 29 anos, conta que passou por uma transição “suave” ao concluir o programa de trainee, em 2000, da Unilever, dona de um dos programas de treinamento mais antigos, conhecidos e disputados do país. ‘Os acessos a que tinha eu mantive, não houve grande ruptura”. Após seis anos na companhia, Puliti deu uma guinada profissional e passou a trabalhar em uma consultoria de recrutamento para a área comercial. Hoje mantém certa visão crítica com relação á diferença (de salário, posição de destaque e expectativa) dentro das empresas entre trainees e os demais funcionários. E alfineta: “Entre um trainee preguiçoso e um assistente que corre atrás, fico com o assistente”.

NA HORA CERTA

Depois de mais de 20 anos atuando no mercado de desenvolvimento de recursos humanos, a psicóloga Elvira Berni acredita que boa parte da frustração sentida por muitos jovens é decorrente da pressa em entrar logo no mercado de trabalho, onde defronta com uma realidade profissional muito dura. “Temos no Brasil um movimento contrário ao europeu, em que as pessoas não têm pressa para se formar, sair da casa dos pais nem para começar a trabalhar”, analisa.

Por essa razão, aponta ela, os recém-formados ainda estão muito imaturos e com pouquíssima experiência de vida quando saem da faculdade e entram direto em um programa de trainee, em que têm de lidar com as dificuldades do mundo organizacional. “Aí ele se frustra ou porque não está vivendo a vida pessoal ou se decepciona com a realidade que encontra”, afirma Elvira. “Se pudesse dar um conselho, diria: ‘Não tenha pressa: viva e se prepare’.” A maturidade, de acordo com a psicóloga, ajuda na hora de fazer as escolhas, superar os obstáculos e enfrentar o medo de não corresponder à enorme expectativa colocada nas costas de alguém que foi trainee. O ex-trainee pode muito bem voltar ao centro do palco – agora não mais pelo seu potencial, mas pelo resultado que apresentar.

Fonte: Estágios e programas de trainee – Guia do Estudante

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